Um dia minha irmã gêmea estava em casa. Nós não moramos juntas desde que ela foi para a faculdade. Uma das vantagens de ser gêmea(o) é que, sem generalizar, se pode enxergar no seu semelhante conflitos muito parecidos com os seus, e de certa forma, enxergar soluções para esses conflitos. Não os seus, propriamente, mas os do seu corpo gêmeo, afinal, os seus não tem soluções.

Tem algo muito semelhante em nós, que talvez alguém aí para quem escrevo possa se identificar, que acaba por nos roubar o presente e todo o nosso potencial atual. Uma coisinha, uma expectativa malandra de daqui há alguns anos eu vou chegar lá, e esse “lá” engloba todo um ideal de futuro perfeito. A base dessa coisinha é a tal da ansiedade. Acontece que os anos passam e, pelo menos eu, na época da nossa conversa com 20 anos, percebi que já estava no tempo de “chegar lá”, que idealizei quando tinha 15 anos. Vejam só que coisa, eu não cheguei lá.

Com 20 anos eu estaria me formando em artes cênicas, morando no Rio de Janeiro, prestes a me casar com um cara SUPER legal, estaria comprando meu primeiro carro, seria uma atriz famosa e ganharia muito dinheiro para ajudar minha irmã gêmea em missões na África. Que bonito! (*-*) Esse era meu plano perfeito. Agora, a minha realidade aos 20 anos: estava na metade da faculdade de jornalismo, morando no interior de São Paulo, não me casei (aliás, nem namorado eu tive, até hoje), estava começando a juntar o dinheirinho ralo do estágio para tirar carteira de motorista, ainda não sabia se tirava a carteira ou comprava uma câmera, e sonhava em ser cineasta e rodar o mundo em missões.

No início do parágrafo anterior eu comecei a expor algumas das minhas expectativas para que, enfim, eu chegasse lá”. O fato é que muita coisa mudou durante o trajeto que eu tracei. No meio do caminho encontrei algumas curvas, parei para descansar os pés e a vista, tentei pegar atalhos e acabei me perdendo no caminho, o que o deixou mais longo, enfrentei subidas difíceis e escorreguei em algumas descidas, mas enfim, cheguei lá. Cheguei, e vi que o “lá” era muito diferente do que eu esperava, com algumas realidades duras mas com muitas compensações. Não tem tudo o que eu queria mas tem muita, muita coisa que eu nem pensei que teria. E quer saber? Eu não troco o “lá” do passado pelo “lá” do presente. Mas às vezes temo trocar o “lá” do presente pelo “lá” do futuro, de novo.

Enquanto conversava com minha irmã, descobri que eu nunca vou chegar lá, não enquanto eu viver. O “lá” MESMO é Lá, e para um bom cristão uma letra maiúscula basta. O mundo perfeito não vai existir aqui, eu não vou salvar o mundo todo, Jesus já fez isso e nem por isso o mundo é perfeito. Só será Lá. A satisfação completa só haverá Lá. Na verdade, eu não sei como será Lá, ninguém sabe. O que eu sei é que esse negócio de escolher esperar (e eu não estou falando da paradinha do “príncipe encantado” e da “princesa do Senhor”) é na verdade um lençol bonito que cobre o colchão da ansiedade onde, eletricamente, repousa o meu corpo tão cheio de potencial. Percebi que não estou “lá”, nem “Lá”, mas estou “cá”, onde deveria estar. Não tenho super poderes nem uma mega influência capaz de me fazer mudar todo o mundo, mas faço parte de um corpo e faço pequenas coisas que podem mudar vários mundos e, juntando com as pequenas coisas que a minha irmã gêmea faz, nós podemos mudar vários mundos vezes dois. E juntando com as pequenas coisas que muitas pessoas fazem, nós podemos mudar vários mundos vezes várias pessoas. E aí a gente ajuda o Homem que salvou o nosso mundo a salvar muitos mundos e enfim revelar o Mundo Perfeito, enfim chegar Lá.

Toda essa reflexão surgiu de uma conversa que tivemos sobre os próximos passos dela, que estava para se formar e não sabia o que fazer, e os próximos passos meus, que estava andando em uma corda bamba que separa o lugar onde eu queria estar do lugar onde eu estava. Pré-ocupações com situações que para nós estava às beiras de acontecer, mas para Deus ainda estavam muito longe. Para cada dia basta o seu mal. O chão está para cada passo, e não o passo está para o chão. Primeiro eu levanto o pé, e então Deus traz a terra firme. Isso é fé.

Essa conversa foi há dois anos. Hoje, minha irmã faz um trabalho lindo em missões através do jornalismo, profissão dela também, e Deus superou grandemente suas expectativas. Nos últimos meses ela tem viajado por muitos lugares e vivido experiências que ela jamais imaginou viver. No tempo certo Deus mostrou para ela o caminho e ela simplesmente seguiu, e seguiu lindamente.

Desta vez eu é que estou para me formar em jornalismo. No fim, comprei a câmera e depois tirei minha carteira de motorista. Continuo querendo ser cineasta e rodar o mundo em missões. Ainda não me casei, não namorei e nem tenho previsão sobre essas coisas. O que tenho agora são muitos planos novos, muitos sonhos, muitas teorias para o que irá acontecer comigo depois que eu pegar meu diploma. Humanamente falando, eu deveria estar preocupada, entregando currículos em todos os lugares, ainda mais em épocas de crises na economia e no jornalismo. Mas não. Estou em paz. Um dia eu entreguei meus caminhos ao Senhor, confiei Nele, e Ele tudo fez. Sempre fez. Sempre fará. Porque tudo é Dele, por meio Dele, e para Ele.

Que a minha preocupação não seja ser melhor amanhã do que eu sou hoje, mas que eu seja melhor hoje do que eu fui ontem. Amém.

Isabela Ribeiro