Na última postagem, nós vimos o que a Bíblia tem a dizer sobre idolatria. Idolatria é a raiz de todo relacionamento de codependência, é o que acontece debaixo da superfície. Vamos agora olhar para o que se passa sobre a superfície.

DEPÊNDENCIA EMOCIONAL

No mundo do aconselhamento este pecado de idolatrar um amigo é frequentemente chamado de “dependência emocional” ou “codependência”. D’Ann Davis do ministério “Living Hope” o descreve desta maneira:

“Normalmente, a maioria daquelas que lutam contra a dependência emocional estão procurando algo super intenso, um relacionamento um-a-um com uma melhor amiga que irá satisfazer todas as suas necessidades e fará de todas as outras relações desnecessárias. Esta pessoa tipicamente adora alimentar toda sua carência e ânsia por ligação por uma pessoa que será o seu tudo (essencialmente seu ídolo, ou deus com “d” minúsculo). Ela ficará muito enraizada à uma idolatria relacional, com ou sem que ela perceba. Ela não quer gastar todos os seus preciosos segundos desenvolvendo uma amizade ao longo dos anos; ela quer intimidade, AGORA, para que possa trocá-la por intensidade.”

Dependência emocional é isso: quando seu senso emocional de bem estar é dependente de outra pessoa. Nós entendemos que Biblicamente isto é idolatria, dar mais valor e peso para uma pessoa do que para Deus. Na busca contínua de um amigo para te dar a segurança que só Deus pode dar, uma dependência emocional se forma. Isto pode acontecer em qualquer relação: pai-filho, marido-mulher, namorado-namorada, ou entre duas amigas ou dois amigos.

As dependências emocionas são nocivas quando acontecem com uma das pessoas da relação. Mas quando duas pessoas são mutuamente dependentes uma da outra, é pior ainda. Se você idolatra uma amiga, mas seus sentimentos não são correspondidos, você é naturalmente forçado a lidar com suas inseguranças e com sua esperança perdida. Quando sua amiga é recíproca a esses sentimentos intensos de necessidade, a dependência emocional frequentemente torna-se incontida (por exemplo, “se minha amiga que ama Jesus acha isso certo, então deve ser certo”). Infelizmente, para o mundo, uma relação mutuamente co-dependente é frequentemente chamada apenas de “best friends”.

Dependência emocional pode até parecer algo bom e piedoso a princípio. Duas amigas co-dependentes podem orar juntas, falar muito sobre Jesus, e serem bastante solidárias uma à outra. A natureza espiritual da amizade pode dar a falsa sensação de que não há nada de errado. Mas mesmo que o tópico principal do assunto é Jesus, a codependência nunca será boa.

SINTOMAS DA CODEPENDÊNCIA

Existem alguns sintomas comuns de codependência. Eu fiz uma lista baseada na lista criada por Lori Rentzel para ajudar na diferenciação entre a interdependência normal de uma amizade saudável e a dependência emocional de uma amizade idólatra.

Ao ler a lista abaixo, esteja consciente que essas são semelhanças gerais entre amizades codependentes. Isto não é uma lista de verificação infalível e algumas dessas coisas podem resultar de outras causas profundas. Mas, eu penso que é seguro dizer que se a maioria dessas coisas são verdadeiras para você ou para alguém que você conheça, isso não é uma amizade saudável.

A Dependência emocional provavelmente está tomando lugar quando qualquer parte de um relacionamento:

  1. Apresenta frequente ciúmes, possessividade e desejo de exclusivismo (ser ‘best friend’ um do outro), vendo as outras pessoas como ameaça para o relacionamento.
  2. Prefere gastar tempo sozinho com seu amigo e fica frustrado quando isso não acontece.
  3. Perde o interesse em outras amizades.
  4. É relutante em fazer planos de longo ou curto prazo que não incluam a outra pessoa.
  5. Refere-se constantemente ao outro em conversas.
  6. Se sente livre para “falar pelo” outro.
  7. Exibe intimidade física que faz os outros sentirem-se desconfortáveis ou embaraçados incluindo, mas não apenas: abraçar frequentemente, segurar as mãos, tocar, esfregar frequentemente costas e nuca, cosquinhas e lutinhas, brincar de paquerar com toques, etc.
  8. Carece de uma medida de privacidade com o outro: ficar nu por perto do outro, etc.
  9. Frequentemente paga refeições e despesas para o outro, faz grandes compras pelos dois.
  10. Se muda para o mesmo apartamento ou para o mesmo quarto ou frequentemente dormem juntos se não estão vivendo sobre o mesmo teto.
  11. Usa as roupas do outro e copia seu estilo de se vestir.
  12. Usa lisonjeio e elogios com frequência, como “Você é a única pessoa que me entende” ou “Eu não sei o que faria sem você”.
  13. Usa apelidos para o outro e se refere a coisas que têm significado especial para os dois, e / ou usa uma linguagem secreta.
  14. Frequentemente pede a “ajuda” do outro, criando ou exagerando uma situação para ganhar atenção ou simpatia.
  15. Faz o outro se sentir culpado sobre as expectativas não atendidas dizendo: “Eu iria ligar para você ontem à noite, mas eu sei que você estava muito ocupado para se preocupar comigo.”
  16. Enfraquece as relações do outro tentando convencê-lo de que seus outros amigos não se importam ou faz amizade com todos os seus outros amigos, a fim de controlar a situação.
  17. Mantêm a agenda do outro ocupada para não dar tempo para atividades separadas.

Novamente, nem todas estas coisas estão erradas em si mesmas. Vestir as roupas de suas amigas, dar conselhos honestos e dormir fora por exemplo podem ser tudo parte de uma amizade saudável. Mas, quando estas coisas são feitas para assegurar a amizade do outro, para alimentar a própria autoestima, ou para controlar ou provocar uma resposta da outra, então isto não é saudável.

Lembre-se, as coisas listadas acima não são o problema, e sim sintomas do problema. O principal problema é o da adoração equivocada: dar mais peso e valor a uma pessoa do que a Deus. Quando nós sentimos que precisamos de outras pessoas mais do precisamos de Deus, nós temos um problema de idolatria. Porque nós somos pecadores, há sempre a tentação de olhar para a criação buscando a alegria que só o Criador pode dar. Cada um de nós deve ser consciente desta tendência em nós mesmos e abrir os olhos, vigiando sempre.

Abaixo estão duas coisas que podem nos fazer susceptíveis a dar uma adoração equivocada para nossas amizades.

1. O exclusivismo

Dois amigos podem se tornar exclusivos um com o outro através de uma série de situações. Isto pode acontecer ao se tornarem “melhores amigos”, companheiros de quarto, companheiros de discipulado (mentor/discipulando) ou qualquer outro tipo ou situação que exclui todos os outros da amizade, exceto estes dois. Isso é perigoso pois pode gerar a dependência da amizade, e não a dependência em Deus.

Há uma razão para as pessoas serem atraídas para as relações excludentes: elas fornecem uma sensação de segurança emocional. “A relação de dependência pode nos dar a sensação de que nós temos pelo menos um relacionamento que podemos contar e que pertencemos a alguém. Nosso desejo de intimidade, carinho e afeto podem ser preenchidos através deste relacionamento. E os nossos egos são reforçados quando alguém admira ou é atraído para nós. Nós também gostamos de nos sentirmos necessários.” (“Emotional Dependency,” Lori Rentzel)

Em última análise, a segurança emocional que estamos buscando só é encontrada em Deus.

“O Senhor é a minha rocha, a minha fortaleza e o meu libertador; o meu Deus é o meu rochedo, em quem me refugio. Ele é o meu escudo e o poder que me salva, a minha torre alta.” Salmos 18:2

Precisamos de amigos que possam nos apontar para essa Segurança. E devemos ter vários amigos que possam fazer isso por nós, não apenas um.

2. Necessidade

Relações de codependência normalmente se formam entre uma pessoa “forte” e uma pessoa “necessitada”. Combinações comuns destas por exemplo são: o mentor/aprendiz, conselheiro/aconselhado, ou professor/aluno. Às vezes, esses relacionamentos começam em resposta a uma crise: a mãe de Kelsey acabou de morrer, e Sarah é a sua força neste momento difícil. Às vezes, eles são apenas tipos de personalidade: Kelsey é desorganizada e preguiçosa, e Sarah é pró-ativa e organizada. Outras vezes, é baseada na necessidade espiritual: Kelsey é uma nova crente, enquanto Sarah é uma cristã experiente.

Nenhuma das relações acima são ruins em si mesmas. Nós legitimamente precisamos da ajuda de outros crentes, às vezes em maior intensidade durante os períodos difíceis. Mas a tentação aqui é deixar que a amizade se torne dependente e então, fique estagnada. Em vez de empurrar um ao outro a crescer em Cristo, as pessoas podem encontrar uma forma de satisfação permanecendo estagnadas. Deixe-me explicar o que isso pode ocorrer:

A pessoa “necessitada” se sente valorizada pela atenção que ela recebe do outro. A pessoa “forte” gosta de ser necessária. Já ela, se sente valorizada por ter um papel tão importante na vida de sua amiga. As duas pessoas estão olhando uma para a outra pelo o seu valor, e não por encontrar o propósito de Deus para elas dentro da amizade. Ironicamente, essas amizades podem ter começado com um desejo genuíno de ajudar alguém a crescer, mas muitas vezes impedem o crescimento real e incentivam ambas as partes a ficarem estagnadas.

PERIGO DO PECADO SEXUAL

Assim como a história de Sarah e Kelsey, dependências emocionais muitas vezes produzem afeição física antinatural. Isto pode conduzir à sexualidade, embora nem sempre. Considerando-se as passagens que estudamos de Romanos nos textos anteriores, isso não deve vir como um choque completo para nós. Perversão é o resultado da idolatria que é adorar a criatura, e não o Criador. A idolatria está no coração da dependência emocional.

Geralmente é difícil para os outros acreditarem que uma amizade entre duas meninas cristãs (ou dois meninos) jamais poderia se tornar algo sexual. Mas isso acontece com mais frequência do que você pensa. Cortou o meu coração caminhar com alguns amigos próximos que estavam nos destroços do pecado sexual por causa de uma amizade co-dependente.

Deixe-me esclarecer que eu não estou falando sobre a luta de longo prazo da atração pelo mesmo sexo. Mas sim a prática de idolatrar um amigo e tornar-se dependente dele, o que pode levar a afeição física íntima que às vezes se transforma em comportamento sexual. Na maioria das vezes, as pessoas nessas amizades nunca tiveram sentimentos homossexuais antes e muitas vezes ainda desejam um relacionamento amoroso com o sexo oposto.

Em uma amizade codependente, a interação física normal entre amigos (abraços, andando de braço dado, de mãos dadas por breves períodos – como quando orando), pode crescer demais: muito tempo de mãos dadas, de mãos dadas com os dedos entrelaçados, dormindo na mesma cama por preferência, muitos abraços, ou apenas ter a necessidade de estar constantemente tocando um ao outro. Se essa intimidade física for prolongada, pode facilmente levar a atividade sexual antes mesmo de se perceber o que está acontecendo.

Há conseqüências pesadas para entrar em qualquer relação sexual fora do casamento. Isso não quer dizer que Deus não possa remir todos os nossos pecados e transformá-lo para o bem. Mas não podemos tratar qualquer tentação para o pecado sexual de uma maneira leve. Se uma amizade está tentando você para qualquer atividade sexual, fuja! (2 Tim 2:22, 1 Tessalonicenses 4: 3) Corra o mais rápido que puder de qualquer amizade que te tente a ter intimidade física e sexual.

Na Parte 4, vamos olhar para o propósito da amizade, biblicamente, e como deve ser uma amizade cristã saudavél.

 

Kelly Needham
Tradução: André Ananias, Lucas Pegoraro

Nota: Esse artigo foi originalmente publicado no blog KellyNeedham e traduzido sob autorização da autora.
Parte 2