O sentimento de que sempre teremos um amanhã nos impulsiona a mente a imaginar o que está por vir. Traçamos planos, fantasiamos encontros, conquistas, projetamos nossos desejos e, assim, tecemos nossas expectativas. Temos fome de novidade, sentimos prazer na surpresa e nos agrada o que é inédito. O futuro nos atrai e, então, dispensamos vários momentos a pensar no que ele nos reserva.

Você pensa a longo prazo: Onde vai morar? Com quem conviverá? Trabalhará com que tipo de coisa? Quem serão seus amigos?

Mas também espera pelo que está próximo: O que fará no fim de semana? Com quem se encontrará? Como será a conversa com fulano? Quando irá assistir aquele filme?

Acerca de tudo, fazemos nossas conjecturas e construímos imagens e ideais. Isso não é de todo ruim, mas precisamos destacar dois aspectos com os quais é preciso certo cuidado.

Nossa ânsia pela novidade é muito dificilmente suprida. Num contexto de tamanha obsolescência, não são só nossos celulares que são trocados todo ano; mas nossos objetivos também, com grande velocidade. Vivemos esperando a sexta-feira. Quando o fim de semana acaba, lamentamos pela segunda mas já passamos a ansiar pelo próximo. Vivemos esperando as férias. Vivemos de evento em evento. Quando alcançamos um sonho, que até então era algo tão desejado por nós, logo partimos em busca de outro. É como se a satisfação de esvaísse em questão de segundos, efêmera que é.

Durante o colegial, estudei arduamente em busca da aprovação no vestibular. Naqueles três anos de dedicação e renúncias, o pensamento de ingressar em uma universidade logo na primeira tentativa era algo que me motivava muito. Naturalmente a festa foi grande quando isso aconteceu. Mas, já na faculdade, não havia mais vestibular pra me motivar e eu precisava encontrar algum outro objetivo. Certo. A partir daí, a ideia passou a ser que eu me formasse, com boas notas e experiências ricas. Durante os cinco anos, sonhei com a formatura. Entre uma noite mal dormida e outra, meu maior desejo era concluir o curso e me parecia que este evento me proporcionaria uma felicidade sem dimensões. Enfim, esta ocasião também chegou. Logicamente fiquei muito feliz, muito mesmo! Já estou até trabalhando mas ainda não consigo acreditar que a faculdade acabou, tamanha minha alegria! Apesar disso, não posso mais ter a formatura como uma motivação, porque ela já passou. Agora meus esforços nos estudos se dirigirão a outros propósitos.

Não quero dizer que estas coisas não tenham sentido ou valor, mas que não são eternas. Estes ainda foram exemplos de sonhos “nobres”, mas há momentos em que depositamos nossas expectativas em coisas banais ou até mesmo fúteis. Elas parecem ser tão grandiosas quando ainda não as alcançamos..! Mas quando chegamos lá e vemos que a vida não se bastava naquilo, somos obrigados a olhar adiante e buscar novos horizontes. Quando chegamos num lugar, ele deixa de ser um horizonte e é substituído por outro, mais uns passos à frente.

Sergio Pimenta tem uma canção que traduz isso maravilhosamente. Seus primeiros versos dizem:

 

“Toda novidade que vem no vento
ao peso da força na rotina cai
Na monotonia do pensamento,
que à busca de outra novidade sai

Ânsia, insatisfação, correria
Buscar experimentação noite e dia
Achados, fugas
(…)”

 

O que me parece é que, de fato, vivemos dessa forma enquanto não encontramos uma motivação eterna, que não se dissipa com o passar do dias. Este também é o diagnóstico para quem vive alicerçado em coisas mutáveis, pra quem vive do momento, do que vale “aqui e agora”. E aí entra o segundo ponto.

Já refleti algumas vezes sobre a diferença entre expectativa e esperança. Mas, num dia desses, conversando com uma amiga que sempre fala coisas muito inteligentes, ela me sugeriu uma explicação muito cheia de sentido. Sob o ponto de vista que ela me apresentou, a esperança é algo que temos adiante, mas que não podemos ver ou compreender com detalhes. Em torno dela, criamos expectativas – que partem da nossa imaginação – acerca dos contornos, das cores, das características daquele objeto em que consiste nossa esperança.

Um exemplo: você pode enxergar que tem algo verde lá na frente, mas não sabe o que é, nem qual o formato, nem a textura, nem se é perigoso ou não se aproximar. Mas você imagina uma linda planta, com florezinhas coloridas a adorná-la. Ao se aproximar, pode ser que acabe encontrando um bicho estranho e agressivo, que vai frustar suas expectativas. Era certo que havia algo verde e realmente havia. Mas era algo subjetivo e incerto que fosse uma planta e isso foi refutado.

A esperança é algo muito mais seguro, mais certo, embora possa não ser tão nítido. A expectativa, por sua vez, é o que sentimos ou pensamos a partir da esperança, o que imaginamos a respeito dela com nossa criatividade e desejos, pra tentar supor as minúcias que não estão ao alcance. Evidentemente, a esperança se apresenta como algo muito mais seguro e a longo prazo, enquanto as expectativas podem nos iludir e se transformam facilmente.

Quando vivemos com base em expectativas e em novidades, rapidamente deixamos de nos sentir satisfeitos. As alegrias efêmeras não nos sustentam e isso nos confirma que não fomos mesmo criados para esse mundo passageiro. Concluímos, portanto, que não está aqui aquilo que devemos adotar como nosso objetivo, nosso maior desejo. A nossa razão está em Jesus. Ele não muda, não passa com o tempo, não é fugaz. Cristo não nos ilude, não nos frustra. Não nos causa ansiedade ou inquietude, mas paz. Posso passar no vestibular, me formar, me casar, ter filhos, viajar para o destino dos sonhos… mas Jesus nunca deixará de ser minha motivação principal, Ele nunca será obsoleto ou ultrapassado. Jamais precisarei pular de objetivo em objetivo, de desejo em desejo.

A única esperança é Jesus, porque Ele é certo; é seguro estar nEle e com Ele. Cristo não é uma mera expectativa, uma especulação ou conjectura. Mas, inevitavelmente, nutrimos grandes expectativas e aguardamos ardentemente pelo nosso encontro com Ele, imaginando como será estar na Sua presença. Ao mesmo tempo, Ele é a água viva que sacia toda a sede, mas também é o desejo insaciável daqueles que O conhecem verdadeiramente.

Na Páscoa, celebramos a ressurreição de Jesus e a lembrança de Sua Obra redentora e de sua aliança com Seu povo. Não devemos, porém, tomar esta ocasião como uma oportunidade apenas de olhar para trás e refletir sobre os eventos descritos nos Evangelhos. Podemos, sim, olhar para frente e enxergar Jesus como nosso mais belo horizonte, ao qual temos a segurança de que um dia chegaremos. A ressurreição de Jesus reafirma a que propósito Ele veio, manifesta o Seu Poder e autentica a esperança que temos nEle e na sua promessa. Não se trata apenas de gratidão pelo que já se fez, mas também pela confiança do que virá. Podemos criar expectativas acerca da vinda de Jesus com muita tranquilidade, porque elas não serão frustradas; serão, na verdade, em muito superadas, já que não podemos sequer cogitar aquilo que o Senhor tem preparado para nós.

Páscoa é Jesus Cristo, é Jesus esperança! Páscoa é a novidade que Ele faz de todas as coisas e criaturas. Páscoa é a satisfação eterna e a surpresa que certamente virá. Não quando nós chegarmos lá, porque não depende de nós, mas quando Ele voltar aqui para fazer o nosso amanhã e completar a Sua Obra perfeita.

 

 
Laura Zanella