Ele já não estava mais do outro lado daquela vitrine que tanto contemplei. Eu finalmente havia ganhado o violão que por tempos desejei. Era mesmo lindo, o tom de sua madeira era o meu preferido e o verniz lhe emprestava um brilho que atraía ainda mais olhares. Suas cordas vieram afinadas da loja, assegurou o vendedor. O case rígido o protegeria de choques e quedas. Ele era de uma marca muito reconhecida e me custou um bom dinheiro; merecia, portanto, todo o cuidado possível.

Logo que souberam, meus amigos me procuraram, pedindo para ver, como eu já previa. Eu mesmo, que não gostava de charme ou falsa modéstia, falava muito sobre minha nova aquisição, porque estava mesmo muito feliz com isso. Nao queria me gabar, de modo algum. Apenas desejava compartilhar minha alegria.

Muitos quiseram visitar-me para ver com os próprios olhos e eu não pude impedi-los. Mas, por cautela, providenciei um pedestal em que pudesse apoiar o violão e algumas placas de acrílico para rodeá-lo, a fim de que todos pudessem contemplá-lo sem precisar tocar nele. Eu mesmo não havia ainda produzido qualquer som com suas cordas. Já tinha visto alguns vídeos de violonistas famosos tocando com violões do mesmo modelo e pude apreciar seu timbre desta maneira, então considerei desnecessário que eu experimentasse isso com minhas próprias mãos e corresse o risco de sujá-lo, arrebentar alguma corda ou coisa do tipo.

Eu muito falei sobre meu violão e passava longos momentos olhando para ele e pensando em como era um instrumento único, com muitas potencialidades e belezas. Muito o contemplei, mas nunca me permiti tocá-lo e por isso jamais soube como era sentir o seu som pessoalmente.

Eu podia dizer todas suas qualidades técnicas, mas sem qualquer propriedade. Tudo que eu saberia dizer a respeito daquele violão era advindo de fontes acessíveis a qualquer um que soubesse ler. O que eu sabia era o que estava escrito por aí, era o que eu ouvia dizer.

Lamentei muito mais isso tudo quando encaixei o meu conhecimento acerca de Deus nessa perspectiva. Fiz o mesmo com Ele. Lia a seu respeito, podia listar um grande número de atributos divinos, de feitos sobrenaturais, narrar as histórias do Seu povo e reproduzir lindos testemunhos de irmãos da Igreja. Mas eu mesmo permaneci distante dEle.

Embora muito o admirasse e contemplasse, nunca me permiti uma aproximação suficiente para ouvir o som das Suas cordas pessoalmente. O que ouvia era a voz de pastores, de mensagens que escutava (e até tomava notas); o que sabia era o que estava nas letras das músicas, nos ensinos de teólogos de todo o mundo.

Eu O admirava, sinceramente me encantava com Sua majestade e beleza e com o que Ele fazia na vida… dos outros. Eu até mesmo anunciei Seu Amor, Seu sacrifício e dei exemplo de retidão. Fui admirado pelos irmãos e tido como um modelo, como um estudioso e como alguém que lida com muita seriedade com a Obra.

Mas, confesso, que de nada fui testemunha. Não soube qual o timbre da voz de Deus. Apesar dos meus empenhos em levar outras pessoas a conhecerem o Senhor e o Seu plano redentor, eu mesmo não me preocupei em falar com Ele, em ter um relacionamento só nosso. E ninguém sabia que eu jamais havia ajoelhado em oração, portanto, nunca me alertaram. Diferentemente de Jó, nunca pude declarar que “antes eu O conhecia só por ouvir falar, mas agora eu O vejo com meus próprios olhos” (Jó 42:5).

Eu O via, mas não O tocava. Eu me emocionava, mas não havia quebrantamento. Eu era um crente religioso, mas nunca fui um cristão religado ao Pai. Fui um devoto, mas jamais um seguidor de Cristo. Vivi um ativismo vazio de significado e sem qualquer virtude. Nunca experimentei a aproximação e a entrega verdadeiras. Eu me mantive no raso, molhando apenas os pés nas poças da espiritualidade. O mar em que realmente mergulhei foi o da hipocrisia, onde acabei por não conhecer a Deus e nem a mim mesmo. Ele também não me conheceu e, afinal, me dirigiu as mais duras e repugnantes palavras, que a Bíblia que eu li em vida já me mostrara mais de uma vez: “Nunca te conheci, aparta-te de mim” (Mateus 7:23).

Enfim, aquele velho ditado vingou: “as aparências enganam”. A reputação que construí e na qual fundei minha edificação era frágil e foi facilmente desmentida por Aquele que foi responsável pelo meu julgamento (Hebreus 4: 12-13). Minha boa fama de servo consagrado, de irmão confiável e amoroso, de membro envolvido com as atividades da igreja e meu exemplo de disposição e comprometimento, de dedicação e sabedoria de nada me serviram quando se viu o que realmente havia no meu coração.

O violonista que sempre estava lá na frente nunca estivera de fato no altar; seus acordes não estavam afinados aos do coração de Deus e soaram tão alto quanto o absoluto silêncio. Padeceu desconhecido e jamais poderá sequer contemplar seu violão através de uma vitrine, muito menos ouvir suas doces notas.

 

Laura Zanella